A Ponte que Permanece

Ao afirmar que o Druidismo moderno é uma tradição viva e vibrante e não apenas uma reconstrução arqueológica é fundamental, significa que sua força não reside na precisão histórica absoluta – algo impossível dada a natureza oral da cultura druídica e o viés das fontes dominadoras romanas – mas em sua aplicação dessa cosmovisão aos problemas e anseios do ser humano do século XXI.

Vivemos numa espiral de imersão constante que nos envolve de maneira tal que acaba transformando o que experenciamos nesse mundo em um lugar profano e dessacralizado.

Na contramão disso, o praticante da espiritualidade céltica tende a buscar a re-sacralização, uma vez que ao entendermos a nossa relação com o espaço ao nosso redor, compreendemos que, sendo animistas, todas as coisas possuem a sua energia vital e tudo é sagrado. A devoção diária é, portanto, a aplicação prática desse conceito.

Desse modo, o objetivo é buscar transformar onde estamos em um santuário. O altar doméstico não é apenas um local de oferendas; é um ponto de axis mundi, um eixo simbólico que conecta os Três Reinos (Terra, Mar e Céu). Não é apenas um ritual; é um ato de trazer a energia dos Deuses para dentro de casa, reafirmando a presença do divino.

Se tivermos claro que mesmo as coisas mais simples que possamos fazer podem ser imbuídas ou ainda, serem parte de nossas práticas devocionais, passaremos a encarar tarefas como cozinhar, limpar ou até mesmo trabalhar no computador como atos de devoção. Esta é a verdadeira ancoragem: encontrar o sagrado não apesar da rotina, mas dentro dela.

A reconexão com o sagrado vai além de um sentimento ou afirmações vagas. É uma mudança radical na percepção de si mesmo em relação ao mundo. Do “Eu” Isolado para o “Nós” Emaranhado, em que pese considerar tudo como algo intrinsicamente relacional.

Não é relacionar-se apenas com os Deuses, mas também com os Espíritos da Natureza, com os Ancestrais da terra onde se vive e com os seus próprios. A devoção diária pode ser tão simples quanto deixar uma maçã do lado de fora para as fadas ou pronunciar o nome de um ancestral em um momento de dificuldade, reconhecendo-se como parte de uma grande teia de existência.

No mundo antigo, uma geis era um tabu ou proibição pessoal, cuja quebra trazia desgraça. Sua conduta na vida era moldada por esse ato. Podemos afirmar que a devoção implica em perceber as consequências de cada ação?

Optar por produção local, reduzir o lixo e honrar os ciclos da natureza são algumas formas de devoção prática que ecoam nosso papel como guardião do equilíbrio entre homem e natureza.

A prática diária não deve ser apenas receptiva (meditar, orar), mas também ativa e criativa. Os celtas antigos veneravam a criatividade, a arte e a inspiração como manifestações divinas. O file (poeta) era considerado tão poderoso quanto o guerreiro.

Escrever um poema, tocar um instrumento, pintar, cozinhar com amor ou até mesmo resolver um problema complexo no trabalho com engenhosidade devem ser considerados como atos devocionais. Eles são uma oferenda dos deuses em forma de inspiração, a imbas forosnai. Contudo, toda devoção deve incluir um trabalho interior.

Meditações guiadas que visam “caminhar pelo bosque sagrado” ou encontrar a “clareira ou fonte sagrada” dentro de si são o equivalente moderno da jornada do herói ao Outro Mundo. Não é um escape da realidade, mas um mergulho profundo em si mesmo em busca de sabedoria e integridade para entendermos o mundo cotidiano. É uma prática de transformação deliberada que permite todas as coisas de nossa vida e transformá-las em um inconsciente ato devocional de ligação nossa com a natureza e com os Deuses.

Ao fazer isso, mão estamos simplesmente imitando os antigos. Estamos em um mundo vivo, consciente e dialogante, onde cada ação, por menor que seja, carrega o potencial de ser um ato de profunda reverência e reconexão com a nossa verdadeira essência.

Afirmar que a devoção deva se infiltrar no cotidiano é a chave para entender o Druidismo, capaz de encontrar o infinito no finito, o eterno no efêmero.

Quase sempre oferecer água não é apenas um símbolo; é um ato de reciprocidade. Pega-se um elemento da natureza e transforma-o de forma consciente em algo consagrado, honrando as divindades das fontes ou os espíritos da água. Deixar uma pequena porção do jantar é uma prática poderosa de compartilhar a própria prosperidade com o mundo invisível, fortalecendo os laços de comunidade que se estendem além do véu.

Observar os ciclos é uma sincronização consciente do ritmo biográfico pessoal com o ritmo biográfico cósmico da Terra. Cada um dos Solstícios, dos Equinócios e dos quatro festivais “de fogo”, não são apenas momentos de celebração, mas um evento que reafirma a nossa ligação com a terra em que vivemos e as deidades ligadas às suas estações.

Na espiritualidade céltica agradecemos ao Sol, cujo trabalho nuclear ininterrupto permite a fotossíntese que gera nosso alimento; à chuva, que lava a poluição e sacia a sede da terra; ao vento que traz mudança e dispersa as sementes; aos minerais e à própria Terra, que oferecem seu corpo para nosso sustento e abrigo. É a criação de um vínculo próprio entre a pessoa e tudo aquilo que está ao seu redor.

Através do altar, constrói-se um centro do mundo em sua casa. Através de cada Rito, reforça-se o contato com as energias dos Deuses, dos Sídhe e dos Ancestrais. E a prática diária mostra que não estamos sobre a Terra, mas somos parte dela, em uma relação de reciprocidade sagrada e contínua.

A ideia de que os druidas não construíam templos (como relata Dião Cássio, referindo-se que eles não os confinavam entre paredes), reafirma a noção de que a espiritualidade céltica via a divindade imanente em toda a criação. Um nemeton não era escolhido aleatoriamente. O carvalho, era reverenciado por sua longevidade, tamanho e por abrigar um ecossistema único: o visco (a “planta dourada” cortada com foice de ouro, conforme descrito por Plínio, o Velho), os liquens, os insetos e os pássaros.

Este ecossistema era um microcosmo perfeito da interdependência que regia o universo. Estudá-lo era decifrar as leis da vida. A devoção, portanto, era um ato de aprendizado contínuo. Consistia em conhecer as histórias, honrar os lugares através de oferendas e peregrinações e, entender a topografia local como um mapa da psique dos deuses. Cada colina, rio e planície tem uma história, um nome e um espírito associado. O Rio Boyne não é abençoado pela deusa Boann; ele é a deusa Boann, fluindo.

A prática de aprender sobre a biorregião local (os nomes das plantas nativas, os ciclos dos animais, as lendas) é algo que nos ajuda a ampliar nossas conexões com a terra em que habitamos.

A descrição contida no “De Bello Gallico” sobre os druidas serem intermediários precisa ser compreendida além do viés romano. O “sacrifício” (sacrum facere – “tornar sagrado”) não era sobre apaziguar deuses irados, mas sobre manter o fluxo de energia entre os 3 reinos. Isso se dava na observância das coisas ao redor, as mudanças de estações, os ventos, as nuvens o sol e a lua, tendo a natureza como a ampulheta máxima para análise das vontades dos Deuses.

Ao ler presságios através do voo de pássaros, do formato das nuvens, das entranhas de um animal, os Druidas mostravam como interpretação é consciente e comunica-se constantemente com os indivíduos, inclusive nos menores sinais. Era utilizado para aconselhar reis sobre quando plantar, quando guerrear, quando fazer tratados.

Era entender a vontade dos Deuses e como seria a ação humana no mundo real. Em nossa prática, buscamos, de certa forma, reaprender a ler estes “sinais” ou a meditar sobre um problema na natureza para encontrar clareza das respostas.

Já a Géis (tabu ou interdição pessoal) era uma lei personalizada. Um druida ou um herói poderia “não caçar um determinado animal” ou “não comer uma certa planta”. Quebrar uma géis era uma ruptura de um contrato sagrado que mantinha o equilíbrio individual e coletivo com o mundo natural. Causava desarmonia, má sorte, fome e até morte.

O druida era o guardião desses conhecimentos e leis, a memória viva das obrigações recíprocas entre o clã e o seu território.

A essência daquilo que compreendemos como devocional precisa ser uma busca diligente pelo aprendizado, pelo autoconhecimento e pela inspiração divina. Somente com comprometimento é que se consegue alcançar uma conexão entre o mundo natural e o interior da psique, através de técnicas de transe, jejum ou exposição aos elementos, buscando embarcar na nossa própria Imramma. Enxergar as visões (Aisling) no uivo do vento, no murmúrio de um rio ou no estado liminar entre o sono e a vigília, incluí o estudo aprimorado de todas as nossas capacidades: intelectual, artística, física e intuitiva.

Tornar-se um “homem ou mulher universal” era honrar os dons dos deuses dentro de si. É muito mais do que uma reconstrução ou uma réplica nostálgica; é a reativação de um arquétipo perene. É a manifestação contemporânea de uma ponte que nunca verdadeiramente ruiu, mas que foi obscurecida pelo ruído do mundo moderno.

Portanto, a prática devocional não é um hobby ou um passatempo. É a arte suprema da lembrança. Honrar isso é o ato mais profundo de resistência espiritual em uma era de desencantamento. É uma declaração de que o mundo não é um recurso a ser explorado, mas um parente a ser honrado.

Nós estamos assumindo o manto dessa função ancestral de sermos a ponte que permanece: um elo vivo de consciência entre o passado e o futuro, entre o humano e o mais-que-humano, entre o mundo tal como ele é e o mundo tal como ele poderia ser, encantado, sagrado e profundamente interligado. Somos a ponte que permanece.

Referências Bibliográficas

Clássicas

    Júlio César. “Commentarii de Bello Gallico“, Livro VI. A principal fonte sobre os druidas, seus papéis sociais e funções religiosas.

    Dião Cássio. “História Romana“. Inclui relatos sobre a resistência dos druidas e suas práticas.

    Cícero. Menciona o druida Diviciaco em seus textos, oferecendo um relato de primeira mão.

Medievais

    Lebor Gabála Érenn. Contém a mitologia de criação e os ciclos dos deuses da Irlanda.

    A Tain Bó Cúailnge. Apresentam histórias de deuses e heróis, com frequentes interações e intervenções druídicas.

Acadêmicos

    REEN, MIRANDA. “The Druids: A History“. Uma investigação histórica séria e acessível que separa o fato do mito sobre os druidas.

    GREEN, MIRANDA. “Os Deuses dos Celtas“. Excelente para entender o panteão e as práticas religiosas através da arqueologia.

    Kondratiev, Alexei. “The Apple Branch: A Path to Celtic Ritual“. Uma obra mais prática, mas profundamente embasada academicamente, que conecta a antiguidade com a prática moderna.

    Cunliffe, Barry. “Druids: A Very Short Introduction“. Uma ótima introdução concisa e confiável de um dos maiores arqueólogos da cultura celta

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